Temple Grandin, Ph.D.
Assistant Professor
Colorado State University
Fort Collins, Co 80523, USA
(Revised: June 2000)
Tradução: Dra. Irene Cristina Lavacchini Ramunno
Revisão: Profª Diva Calles
Bons
professores me ajudaram a superar meus limites e vencer o autismo. Com
dois anos e meio, fui colocada em uma pré-escola com professores
experientes. Desde os meus primeiros anos fui ensinada a ter boas
maneiras e a me comportar numa mesa de refeições. Crianças autistas
precisam de uma rotina estruturada e de professores que saibam ser
firmes, mas gentis.
Dos dois anos e quatro meses a cinco anos, meu
dia era totalmente estruturado e eu não tinha permissão para romper este
esquema rígido. Eu tinha sessões individuais de fonoaudiologia cinco
vezes por semana. Minha mãe contratou uma babá que passava de três a
quatro horas por dia brincando e jogando comigo e minha irmã. Ela nos
ensinou a praticar, durante as brincadeiras, o ato de ceder a vez ao
outro (“turn taking”). Quando fazíamos um boneco de neve, ela me deixava
cuidar da parte de baixo e minha irmã se encarregava da outra. No
horário das refeições, todos comíamos juntos e eu não tinha permissão
para nenhuma atitude inadequada (do any “stems”). Apenas no período de
uma hora de descanso após o almoço, eu era autorizada a voltar ao
comportamento autista. A combinação entre pré-escola, fonoaudiologia,
atividades lúdicas, refeições com “bons modos” somava mais de quarenta
horas por semana, nas quais meu cérebro era mantido conectado ao
trabalho.
Muitos portadores de autismo são pensadores visuais. Eu
penso através de imagens. Não penso através de linguagem. Todos os meus
pensamentos são como videotapes passando em minha imaginação. Minha
primeira linguagem são figuras; a segunda são palavras. Substantivos
foram as palavras mais fáceis de aprender, pois, na minha mente, eu as
podia relacionar a uma figura. Para aprender expressões como “para cima”
ou “para baixo”, a professora precisa demonstrá-las à criança. Por
exemplo: pega um avião de brinquedo e diz “para cima” enquanto faz o
movimento de decolagem e “para baixo”, enquanto faz o movimento de
aterrissagem.
Evite instruções verbais longas. Autistas têm
dificuldade em lembrar seqüências. Se a criança souber ler, escreva as
instruções em um papel. Eu não consigo guardar seqüências. Se eu pedir
informações de percursos em um posto de gasolina, só consigo lembrar
três etapas da explicação; se a instrução é maior, preciso escrevê-la.
Eu também tenho dificuldade para lembrar números de telefones porque eu
não consigo montar uma figura em minha cabeça.
Muitas crianças
autistas são boas em desenho, arte e programação de computadores. Estes
talentos deveriam ser encorajados. Acho que deveria haver muito mais
ênfase no desenvolvimento dos talentos destas crianças.
Muitas
crianças autistas se fixam num assunto como trens e mapas. A melhor
maneira de lidar com estas fixações é usá-las para motivar os trabalhos
da escola. Se a criança gosta de trens, use-os para ensinar a ler e para
ensinar matemática. Leia um livro sobre trens e faça exercícios de
matemática usando trens. Por exemplo: calcule quanto tempo um trem leva
para ir de Nova Iorque a Washington.
Use métodos visuais concretos
para ensinar conceitos numéricos. Meus pais me deram um brinquedo que me
ensinou os números. Consistia de um kit de blocos com diferentes
comprimentos e cores para cada número de 1 a 10. Com ele aprendi a somar
e subtrair. Para aprender frações, minha professora tinha uma maçã de
madeira cortada em quatro partes e uma pêra de madeira cortada ao meio.
Com este material, aprendi os conceitos de um quarto e meio.
Eu tinha
a pior caligrafia da minha classe. Muitos autistas têm problema de
motricidade manual. Caligrafia caprichada é difícil na maioria das vezes
e isto pode frustrar muito a criança. Para reduzir esta frustração e
ajudar a criança a gostar de escrever, deixe-a digitar no computador.
Digitação é geralmente mais fácil.
Algumas crianças aprenderão a ler
mais facilmente com o uso de fonemas e outros aprenderão melhor
decorando palavras. Eu aprendi com fonemas. Minha mãe me ensinou regras
fonéticas e me fazia emitir os sons relacionados às palavras. Crianças
com muita ecolalia geralmente aprenderão melhor se forem usados cartões e
livros com figuras, para que as palavras sejam associadas a figuras. É
importante que se tenha a figura e a palavra impressa no mesmo lado do
cartão. Para ensinar substantivos a criança precisa escutar você falar a
palavra, ver a figura e a palavra escrita simultaneamente. Por exemplo,
para ensinar um verbo: segure um cartão que diz “pular” e você fala
“pular” enquanto executa o ato de pular.
Quando eu era criança, doíam
nos meus ouvidos os sons altos, como o sino da escola, ou ainda, o
barulho do “motorzinho” do dentista alcançando um nervo. Crianças
autistas precisam ser protegidas de sons que machucam seus ouvidos. Os
sons que causam mais problema são os sinos de escola, sistemas de
amplificação eletrônica em áreas públicas, zumbidos de ginásios e os
sons de cadeiras raspando no chão. Em muitos casos, as crianças terão
maior tolerância aos ruídos se estes forem ligeiramente abafados por
panos ou fita adesiva. O barulho de raspar cadeiras pode ser amenizado
com o uso de protetores nos pés das cadeiras ou de carpetes. Uma criança
pode temer uma determinada sala por ter medo de ser atingida pelo ruído
da microfonia ocasionada pelo sistema de amplificação eletrônica. O
medo de um determinado som pode resultar num comportamento inadequado da
criança. Cobrir os ouvidos indica que algum som a está perturbando.
Alguns
autistas se incomodam com distrações visuais ou luzes fluorescentes.
Eles podem ver o pulsar de 60 ciclos de eletricidade. Para evitar este
problema, coloque a carteira / mesa da criança perto da janela e evite a
luz fluorescente. Se não puder evitá-la, use lâmpadas novas que pulsam
menos.
Alguns autistas hiperativos, que se inquietam a toda hora,
ficariam mais calmos se lhes fossem dados para vestir uniformes
acolchoados, com certo peso. A sensação de pressão do vestuário ajuda a
acalmar o sistema nervoso. Para melhores resultados, a vestimenta
deveria ser usada por 20 minutos e então retirada por alguns minutos
para prevenir que o sistema nervoso se acostume com ela.
Alguns
autistas responderão melhor e terão um melhor contato visual e fala se a
professora interagir com eles enquanto estão num balanço ou rolando em
uma esteira. O estímulo sensorial do balanço ou a pressão da esteira
algumas vezes ajuda a melhorar a fala. O balanço deveria sempre ser uma
brincadeira divertida e nunca forçada.
Algumas crianças e adultos
podem cantar melhor do que falar. Eles podem responder melhor se as
palavras e frases forem cantadas para eles. Algumas crianças com extrema
sensibilidade a som, responderão melhor se a professora sussurrar para
eles.
Algumas crianças e adultos não-verbais não conseguem, ao mesmo
tempo, processar estímulo verbal e visual. Eles são “mono-canal” e não
podem ver e ouvir simultaneamente. Não se deve pedir isso a eles. É
preciso dar-lhes ou uma tarefa visual ou uma tarefa auditiva. Seus
sistemas nervosos imaturos não conseguem processar os estímulos visuais e
auditivos concomitantemente.
Em crianças mais velhas e adultos
não-verbais, o toque geralmente dá maior sensação de segurança,
geralmente mais fácil para eles terem maior percepção, para sentirem.
Pode ser ensinado o significado das letras, permitindo que as crianças
toquem letras de plástico. Eles podem aprender a rotina diária, sentindo
alguns objetos, minutos antes da atividade ser executada. Por exemplo:
quinze minutos antes do almoço, dê uma colher para eles segurarem.
Deixem que eles segurem um carrinho de brinquedo poucos minutos antes de
sair de carro.
Alguns adultos e crianças autistas aprenderiam melhor
se o teclado do computador fosse colocado próximo à tela para que
pudessem ver simultaneamente o teclado e a tela. Alguns indivíduos têm
dificuldade em lembrar se eles têm que olhar para cima após teclar.
Crianças
não-verbais terão mais facilidade em associar palavras às figuras se
visualizarem a palavra escrita e a figura em um cartão. Alguns não
entendem desenhos e, por isto, é recomendável trabalhar-se primeiramente
com objetos reais e fotos.
Alguns indivíduos autistas não sabem que a
fala é usada para comunicação. O aprendizado da linguagem seria
facilitado se exercícios de linguagem promovessem a comunicação. Se o
indivíduo pedir uma xícara, dê a xícara a ele. Se pedir um prato quando
quer uma xícara, dê o prato a ele. O indivíduo precisa aprender que,
quando ele emite palavras, coisas concretas acontecem. É mais fácil para
o autista entender que as palavras estão erradas se elas resultarem em
objetos incorretos.
Muitos autistas têm dificuldade em usar o mouse
do computador. Tente um mouse com dispositivo do tipo “tracking ball”
com botões separados para cliques. Autistas com problemas de motricidade
manual acham muito difícil segurar o mouse enquanto clicam.
Crianças
com dificuldade em entender a fala têm trabalho em diferenciar os sons
de consoantes de som forte como “D” em “dog” ou “L” em “log”. Fui
ensinada a ouvir estes sons através de enunciados fortes e prolongados
dos sons das vogais.
Vários pais me disseram que o uso de legendas na
televisão ajudou seus filhos a aprender a ler. A criança era capaz de
ler as legendas nas fitas e combinar as palavras escritas com as
faladas. Seria útil gravar o programa favorito com legendas em fitas,
pois esta pode ser vista, revista e pausada.
Alguns indivíduos
autistas não entendem que o mouse movimenta a seta na tela. Eles
poderiam aprender melhor se fosse colado um desenho da seta, idêntico ao
da tela, em cima do mouse.
Crianças e adultos autistas podem ver o
“piscar” (a emissão de sinais) da tela do computador. Eles podem
enxergar melhor em laptops e telas planas que “piscam” menos.
Autistas
que têm medo de escadas rolantes geralmente têm problemas de
processamento visual. Eles têm medo porque não conseguem determinar
quando devem entrar e sair da escada. Estes indivíduos também podem não
tolerar luzes fluorescentes. Podem ser úteis para eles óculos com
filtros coloridos (the irlen colored glasses) (reduzindo a luminosidade
que pode machucar os olhos de autistas).
Indivíduos com processamento
visual deficiente com freqüência acham mais fácil ler letras impressas
na cor preta sobre papel colorido, para diminuir o contraste. Tente
papel bege claro, azul claro, cinza ou verde claro. Experimente com
cores diferentes. Evite amarelo brilhante que pode incomodar os olhos
dos autistas. Também neste caso, podem facilitar a leitura estes mesmos
óculos com filtros coloridos.
Junho de 2000
Centro de Estudo de Autismo
Aos
dois anos, a Dra Temple Grandin foi diagnosticada com autismo. Temple é
autora de duas autobiografias: Emergency: Labeled Autistic, Arena Press
(1986) (Emergência: Rotulada como Autista) e Thinking in Pictures,
Double Day (1995) (Pensando por meio de Figuras). É Professora Associada
na Universidade de Colorado, porta-voz internacional sobre Autismo e
sobre tratamento humanizado para animais. Proprietária da “Grandin
Livestock Systems”, Temple é mundialmente conhecida como designer de
instalações para o manejo de gado e outros animais domésticos.
Tipo de curral para vacinação ou para carregar o gado nos caminhões que
se assemelha a um caracol, no qual o gado vai andando, sempre em
frente, mas em círculo. Assim, sente-se protegido pelas cercas de cada
lado, anda tranqüilamente e, quando menos se espera, está no caminhão,
sem estresse, de forma mais humanizada.
Fonte: http://topicosemautismoeinclusao.blogspot.com/2007/08/dicas-de-como-ensinar-crianas-e-adultos.html