quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Por que bater não educa e ainda torna o seu filho agressivo, agora e no futuro

Estudo brasileiro reforça o quanto a palmada só gera agressividade e infelicidade nas crianças

Ana Paula Pontes

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Bater, gritar, chacoalhar a criança na hora de um ataque de birra. Com certeza, você já presenciou uma cena dessa em algum momento. O que você achou? Agressivo, né? Pois bem. Infelizmente, essas “técnicas” para mudar o comportamento de um filho continuam firmes e fortes no dia a dia de algumas famílias. E comentários do tipo “não concordo em espancar, só dou um tapinha na mão” são fáceis quando o assunto palmada é foco de alguma nova reportagem. Faz parte desta lista o “apanhei e não sou revoltado”, e por aí vai. Geralmente, são essas pessoas que apanharam que agora estão batendo...
É exatamente esse ato-reflexo da agressividade a conclusão de uma pesquisa realizada pelo Núcleo de Estudos da Violência (NEV), da Universidade de São Paulo (USP), divulgada recentemente. A análise mostrou que as crianças que apanharam na infância têm maior probabilidade de adotar a violência em situações do cotidiano quando adultas.


Perguntados sobre como reagiriam se seus filhos apresentassem problemas de comportamento, aqueles que apanharam quase todos os dias foram os que mais escolheram a opção “bater muito” em seus filhos. Se pegassem o filho mentindo, por exemplo, 3,2% dos pais que nunca sofreram agressões na infância bateriam em seus filhos contra 11,3% daqueles que apanhavam regularmente.

Esse pais também tendem a incentivar os filhos a responderem com violência caso sofram alguma agressão física na escola. Perguntados sobre o que fariam se o filho chegasse em casa com o nariz sangrando após uma provocação na escola, 4% dos pais que nunca apanharam disseram que o filho deveria bater em quem bateu nele, contra 9,8% dos que apanhavam com frequência.

“Dessa forma, a criança entende que a violência é uma opção legítima e vai usá-la quando tiver um conflito com colegas da escola, por exemplo. Mas, ao agredir, ela também pode sofrer agressão e se tornar vítima. E isso cresce de forma exponencial ao longo da vida”, disse em nota a psicóloga Nancy Cardia, vice-coordenadora do NEV. Sim, as crianças vão repetir o que aprenderam em casa - hoje e no futuro, seja com com amigos, irmãos, companheiros, parentes, na faculdade, no trabalho.

A pesquisa - realizada em 11 capitais brasileiras - revelou ainda que mais de 70% dos 4.025 entrevistados apanharam quando crianças. Para 20% deles, a punição física ocorreu de forma regular – uma vez por semana ou mais. E a palmada era apenas coadjuvante nesses casos. Castigos com vara, cinto, pedaço de pau e outros objetos capazes de provocar danos graves foram mais frequentes do que os tapas, principalmente entre aqueles que disseram apanhar quase todos os dias.

Aqueles que apanhavam muito (os 20%) foram os que mais escolheram a opção “bater muito” em seus filhos caso esses apresentassem mau comportamento. Eles também esperavam que os filhos respondessem com violência caso sofressem alguma agressão física na escola.
Um estudo anterior, realizado por cientistas da Universidade de Manitoba, e publicado em fevereiro deste ano no Canadian Medical Association Journal (Revista da Associação Médica Canadense) revisou 20 anos de pesquisas sobre o assunto e o resultado mostrou que nenhuma delas sugeriu qualquer benefício da agressão como forma de educar. Pelo contrário: assim como os pesquisadores brasileiros, os canadenses também descobriram que as crianças que apanharam na infância se tornam mais agressivas.
(LEIA TAMBÉM: 10 RESPOSTAS SOBRE PALMADA)

Se você já apanhou, também deve se lembrar bem do sentimento que tinha naquela hora. “A criança que sofre agressão se sente rejeitada pelos pais, e isso contribui para sua baixa autoestima, transtornos de ansiedade, depressão, estresse”, afirma Gustavo Teixeira, psiquiatra e autor dos livros Manual Antibullying e Desatentos e Hiperativos (ambos da Ed. BestSeller). Além disso, a baixa autoestima de uma criança a torna alvo de bullying como também facilita que ela se torne agressora.

Mesmo com tantas provas de que ser agressivo com o filho só traz resultados negativos isso ainda é tão forte na sociedade. Por quê? “Por resistência, negação do problema, desinteresse em mudar, pressa em uma solução rápida, com péssimos resultados depois”, reforça Teixeira. Não tem segredo. Para educar uma criança, é preciso paciência, persistência, tempo e carinho. “Eu continuo sempre acreditando que uma hora isso vai mudar”, diz Teixeira. Nós aqui também!

10 perguntas sobre palmada

Violência não é a melhor saída para impor limites. Veja como educar as crianças sem perder a razão

Bruna Menegueço e Cíntia Marcucci

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Se você acha que um tapa no seu filho vai fazer com que ele aprenda sobre limites e respeito, mude de atitude já! A seguir, veja respostas para as dúvidas mais comuns sobre o assunto e, ainda, opções que vão além da palmada para impor limites mesmo nos momentos mais difíceis.


1 - O tapinha carinhoso deve ser considerado agressão?
O contato físico entre filhos e pais é fundamental. Nesse caso, você deve ter bom senso e analisar a situação. O tapa representa uma violência, a criança sente dor. Se esse for o caso, o tapa deve ser considerado uma agressão. Do contrário, se o contato faz parte de uma brincadeira, é leve e não incomoda, tudo bem. Mas o tapa pode ser um gesto mandatório e nem sempre os adultos percebem a força exercida. Na dúvida, não faça.


2 - O que a criança sente quando está apanhando?
Depende da idade. De um modo geral, a criança se sente agredida e não consegue relacionar o motivo da violência ao que fez para provocar aquilo. Ele sente medo e isso pode gerar traumas, afinal, ela está apanhando por um motivo não compreendido.


3 - Como a palmada se forma na memória do adulto?
Ninguém tem lembranças boas de um tapa. Mas como ele vai ser registrado na memória definitiva, varia de acordo com o vínculo afetivo estabelecido com os pais.


4 – Nesse caso, a palmada pode se transformar em algo aceitável, ou seja, um valor da família?
Sim. Antigamente, a palmada era usada como instrumento de educação de forma habitual. Dessa forma, o adulto pode entender que só é possível educar dessa forma, transmitindo os valores de violência e agressão para futuras gerações.


5 - Na minha casa, fui criado à base de palmada e hoje não tenho traumas. Por que, então, ela pode ser prejudicial ao meu filho?
Se você pensar dessa forma, deve voltar a assistir TV em preto e branco, andar com carros antigos, usar as roupas fora de moda. O mundo evoluiu em todos os sentidos, principalmente na forma de educar, que é a base da sociedade. Além disso, é impossível prever como um tapa será recebido por uma pessoa. Há quem seja mais tolerante e outros que sofram mais. Quem vai querer pagar para ver se isso causará problemas no filho, se existem outras maneiras de educar?


6 - Por que bater não educa?
Quando o adulto bate no filho, ele está reconhecendo que ficou impotente diante da atitude da criança. Mostra claramente que perdeu o controle de si mesmo e a agressão passa a ser a única maneira de manter a autoridade. A força física de um adulto é maior e se amplia nos momentos de raiva. Testar os limites dos pais é um comportamento típico que faz parte do aprendizado da convivência em família. Embora não seja fácil, os adultos devem lidar com as manhas com carinho e desenvolver a capacidade de dialogar e explicar as coisas para a criança sem violência. Afinal, ela é capaz de entender mais do que se imagina. Além disso, depois de bater muitos pais se arrependem. Essa atitude contraditória não é positiva para a criança.


7 - Quais são as consequências da palmada para vida da criança?
Em primeiro lugar, a criança primeiro não entende por que está apanhando. Pode sentir raiva do adulto e aprender que a força é um meio aceitável de conseguir o que quer. Além disso, para descontar o tapa que levou dos pais, vai bater nos amiguinhos. O adulto não tem moral para dizer que isso é errado, as referências da criança ficam, portanto, confusas. Para piorar, após a agressão, ela vai remoer coisas antigas, trazer à tona mágoas de quem o agrediu e até mesmo querer se afastar do agressor.


8 – Ela pode, ainda, ter outros problemas no futuro?
Sim. A criança que apanha também pode ter dificuldades para respeitar autoridades e receber ordens, já que era controlada pela força física. Ela obedecia para não apanhar ou somente depois de levar uns tapas. Assim, na ausência do castigo físico, perde as referências de até onde pode ir.


9 - Como agir em situações em que as crianças tiram os pais do sério ou ultrapassam limites, como birras e escândalos em lugares públicos?
A questão é colocar os limites claramente para as crianças antes, conhecer bem os seus filhos. Tapas não são capazes de corrigir as falhas na educação. O diálogo, a explicação de que aquilo não é certo, com carinho, é mais eficiente. Pois, dessa forma, a criança compreende melhor. O tapa só vai estancar uma ação que provavelmente irá se repetir.


10 – Em vez de bater, tem problema gritar com a criança?
Sim. Substituir os tapas por gritos também não adianta. É um tipo de agressão verbal, por isso, tem praticamente o mesmo efeito da violência física.


Fonte: Kátia Teixeira, psicóloga da clínica EDAC (SP), Cacilda Paranhos, especialista contra a violência infantil do Laboratório de Estudos da Criança (Lacri), do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP)

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